sexta-feira, outubro 27, 2006

Da mais alta janela da minha casa

É lei, neste blog, postar somente escritos meus, Mas hoje quebro esta lei, quebro e não quebro, pois esta poesia faz parte de tantos dos meus eus, que é quase outro de mim. Esta poesia, ah esta poesia, não sei que seria de mim sem esta poesia... nem é grande coisa! Alguns dirão, mas naquela manhã, para o garoto de 8 anos, que, há 10 anos ou mais lia e relia e tre e tetralia aquela poesia, foi grande coisa, foi, é e será, eternamente, a que marcou minha iniciação. a que me batisou, minha poesia-madrinha... com vocês, Pessoa

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Tu

***Para todas as mulheres, mas, ao mesmo tempo, para uma só.***


Andei a pensar no que me dissestes, sobre não poderdes inspirar... e devo dizer que concordo! Não poderia mesmo, o melhor dos poetas, inspirar-se em ti, mulher.
Inspirar-se, em algo ou alguém, é usar disto para encontrar a inspiração. É como usar uma droga para encontrar prazer. um meio, e não um fim.
E justamente por isso, não poderiamos, eu nem ninguém, nos inspirar-mos em ti. Pois tu não és meio, senão fim.
És a inspiração propriamente dita, minha cara. É isso que as mulheres são, INSPIRAÇÂO. Todos os poetas, de todos os tempos, usaram da mulher, em todos os seus aspectos. Alguns usaram do sexo, e disso não passaram. Poesia banal, essa que fala do prazer sexual, mas inegavelmente fala da mulher. Outros usaram de teu corpo, de teus seios, e até, mais sublimemente, do teu olhar e teus perfumes. Poesia ainda meramente carnal, mas já me servi tanto destas que tenho que aceitar seu grande valor.
Porém, hoje, ao rabiscar estas palavras, bebo da fonte primeira da inspiração. Bebo diretamente da alma da mulher.
A alma da mulher é a alma do poeta, posto que é o mais próximo de Deus que o poeta poderia chegar neste mundo. A alma da mulher não transcende, feito a do homem, ela é a própria transcedência. É a nascente de todo rio, e a faísca de todo fogo. É a pedra-fundamental de toda obra, e é o ar, que permite ao obreiro construir.
Tu choras, por crer-se pouco, e isso só te faz mais do que já és. A única mulher em que poeta algum encontra inspiração, é aquela mulher amarga, de cara amarrada. Nelas, nem inspiração sexual existe, pois se afastaram delas mesmas, e por isso soam tão poéticas quanto a fedentina. Estas buscam ofuscar-se com brilhos e brilhantes.
Portanto, se não lhe deram o valor devido, mulher, não te creias desprovida do mesmo. Não te sustentes nos erros de outros para que erres também, perdoe-os, não sabem o que fazem!